Infâmias

Sarcasmo, ironia e acidez

Ensaio sobre a cegueira: a estranha opinião de quem não viu

Posted by Sátiro em outubro 17, 2008

Assisti há alguns dias o filme “Ensaio sobre a cegueira”, adaptação do diretor brasileiro Fernando Meirelles para o cinema do livro do escritor português José Saramago.

O filme é bastante forte, com um enredo que chega a causar mal estar; honestamente, em determinados momentos cheguei a ter certeza de que veria mulheres saindo no meio. Se você acha que eu estou exagerando, depois de ver o filme fui dar uma olhada no blog que o Fernando Meirelles fez para divulgar o andamento do mesmo, e descobri que isso aconteceu bastante nas sessões de teste que foram feitas antes do lançamento. (Aliás, um parêntese: eu não sabia até ler esse blog que o processo de produção de um filme incluia esse procedimento; sessões para públicos selecionados, que dão palpites e podem causar cortes e modificações. Acho que finalmente entendi o que significa o termo “versão do diretor”, usado para relançar alguns filmes; era provavelmente o filme que o cara queria ter lançado, antes dos palpites e modificações pra ficar mais vendável).

Se você é sensível e não leu o livro, vá ver preparado.

Além do filme em si, uma coisa me chamou a atenção na mídia sobre ele, e que gerou a piadinha sem graça do título do post: ele está causando protestos por parte de organizações de apoio à pessoas cegas nos Estados Unidos. O presidente de uma entidade americana chamada Federação Nacional dos Cegos, um tal de Marc Maurer, soltou uma declaração dizendo que pretende liderar protestos porque “o filme mostra os cegos como monstros”. Putz, Mr. Maurer; o filme mostra PESSOAS que são monstros, a cegueira é um detalhe. Apesar do título e da presença constante da figura da cegueira, é evidente que a mesma foi usada na história apenas como um elemento acessório, e que o ponto central é o caos e as facetas perversas da humanidade que afloram quando não há o que as limite. Ou Mr. Maurer é muito lento de raciocínio, ou está querendo aparecer um pouco às custas do filme, ou a pessoa que foi com ele ao cinema não descreveu o filme com a riqueza de detalhes necessária.

Apenas como comentário, esse foi um dos dois únicos filmes que eu vi na vida em que a platéia aplaudiu no final. O primeiro foi Titanic, filme legalzinho, mas que eu nunca entendi porque causou tanto frisson. Mas acho que o fato de eu ter visto Titanic num cinema em Caxias (cidade da baixada fluminense vizinha ao Rio de Janeiro, e área humilde), e ter visto Blindness no espaço Unibanco de Botafogo (Cinema elitizado em área nobre do Rio) provavelmente teve seu peso.

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7 Respostas to “Ensaio sobre a cegueira: a estranha opinião de quem não viu”

  1. Rê F. said

    Ainda não vi o filme… e acho que só verei quando sair em DVD… filmes que causam muito frisson me tiram um pouco o tesão. (foi assim com aquele da polícia, que eu naum lembro o nome agora!!! haha…)

    Quando eu li a notícia que os caras pretendiam fazer um boicote ao filme nos EUA, fazer protesto na frente das salas de cinema, achei de uma burrice sem tamanho, falta do que fazer. Coisa de americano! A história já existe há tempos, e eles, provavelmente, nem sabiam… fechados no primeiro mundinho deles!! rs…

    Beijo

  2. Sátiro said

    Cara, é evidente que a crítica da história não é dirigida aos cegos. Só um cego não veria isso! (Ridículo, mas não resisti… 😛 )

  3. adorei seu trocadilho no comentário acima!! rsrs

    e ri muito com seu “gulosa” no meu blog! hahahaha

    Não vi esse filme por pura preguiça!! Vou baixa-lo hoje mesmo e ver no aconchego do meu lar!!!

  4. ah…e detalhe.
    notou como tem poucos comentários lá no blog hoje?? Se eu tivesse falado de sexo selvagem ou ménage a trois estaria chovendo os comentários mas o tema de hoje inibe até os mais abertos blogueiros/as!!

    beijos!!

  5. Lyla said

    Não li o livro e não vi o filme.
    Mas, falando sobre temas que causam mal estar, recomendo fortemente “O escafandro e a borboleta”, livro de Jean-Dominique Bauby.
    Ele era editor-chefe da revista Elle francesa e pelo que conta no livro era um bom vivant. Até ter um derrame e, decorrente disso, a “locked-in syndrome” ou “trancado dentro de si mesmo”. É, o cara ficou completamente paralisado, só com os movimentos da pálpebra esquerda. E com isso, conseguiu ditar um livro!! Ele revisou e modificou o livro todo na cabeça, enquanto passava por todos os perrengues decorrentes de sua condição.
    E não é um livro cheio de lamentações não: pelo contrário, tem finos toques de ironia e é claro triste, em vários momentos.
    Saiu o filme também, mas parece que não é tudo isso, não o vi.
    Mas o livro! Ah, o livro… Raras vezes um livro me fez chorar e rir e esse foi um deles.

  6. Sátiro said

    Hum… vai pra lista de leituras planejadas… :).

    O enredo me lembrou de um livro brasileiro que eu li há uns dez anos atrás, chamado “Sem asas ao amanhecer”, de uma menina de 22 anos chamada Luciana Scotti que teve um AVC, perdendo a capacidade de andar, falar, todo o uso do braço direito e quase todo do esquerdo. Nessas condições, ela escreveu esse livro, e posteriormente cursou um mestrado, escreveu um livro técnico na sua área de trabalho e foi aprovada para um doutorado. A menina é uma forte, e uma boa referência para os momentos em que nos queixamos da vida por banalidades.

  7. O livro do saramago ainda não li [mas está na lista] e provavelmente não verei o filme, já q não gosto muito das adaptações pra cinema de grandes obras… agora qnto ao Sr. Maurer só tenho a lamentar q queira aparecer as custas do filme…

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