Assisti há alguns dias o filme “Ensaio sobre a cegueira”, adaptação do diretor brasileiro Fernando Meirelles para o cinema do livro do escritor português José Saramago.
O filme é bastante forte, com um enredo que chega a causar mal estar; honestamente, em determinados momentos cheguei a ter certeza de que veria mulheres saindo no meio. Se você acha que eu estou exagerando, depois de ver o filme fui dar uma olhada no blog que o Fernando Meirelles fez para divulgar o andamento do mesmo, e descobri que isso aconteceu bastante nas sessões de teste que foram feitas antes do lançamento. (Aliás, um parêntese: eu não sabia até ler esse blog que o processo de produção de um filme incluia esse procedimento; sessões para públicos selecionados, que dão palpites e podem causar cortes e modificações. Acho que finalmente entendi o que significa o termo “versão do diretor”, usado para relançar alguns filmes; era provavelmente o filme que o cara queria ter lançado, antes dos palpites e modificações pra ficar mais vendável).
Se você é sensível e não leu o livro, vá ver preparado.
Além do filme em si, uma coisa me chamou a atenção na mídia sobre ele, e que gerou a piadinha sem graça do título do post: ele está causando protestos por parte de organizações de apoio à pessoas cegas nos Estados Unidos. O presidente de uma entidade americana chamada Federação Nacional dos Cegos, um tal de Marc Maurer, soltou uma declaração dizendo que pretende liderar protestos porque “o filme mostra os cegos como monstros”. Putz, Mr. Maurer; o filme mostra PESSOAS que são monstros, a cegueira é um detalhe. Apesar do título e da presença constante da figura da cegueira, é evidente que a mesma foi usada na história apenas como um elemento acessório, e que o ponto central é o caos e as facetas perversas da humanidade que afloram quando não há o que as limite. Ou Mr. Maurer é muito lento de raciocínio, ou está querendo aparecer um pouco às custas do filme, ou a pessoa que foi com ele ao cinema não descreveu o filme com a riqueza de detalhes necessária.
Apenas como comentário, esse foi um dos dois únicos filmes que eu vi na vida em que a platéia aplaudiu no final. O primeiro foi Titanic, filme legalzinho, mas que eu nunca entendi porque causou tanto frisson. Mas acho que o fato de eu ter visto Titanic num cinema em Caxias (cidade da baixada fluminense vizinha ao Rio de Janeiro, e área humilde), e ter visto Blindness no espaço Unibanco de Botafogo (Cinema elitizado em área nobre do Rio) provavelmente teve seu peso.
